Caro leitor, cara leitora, que sua semana se abra
com tamanha beleza:
Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo
demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é.
Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado
inimigo.
É uma fala de Julieta na peça “Romeu e Julieta” de William Shakespeare. E
mais:
Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do
lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas
criaturas.
Estavas comigo, mas eu não estava contigo.
Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não
existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e
brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargistes tua fragrância e,
respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti.
Tu me tocaste, e agora estou ardendo do desejo da tua paz
O trecho é de “Confissões” de Santo Agostinho,
capítulo dez.
O grande autor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881)
dizia que a beleza salvaria o mundo. Conhecendo o abismo do desespero e do
niilismo, ele profetizou a força da beleza como restauradora do espírito.
Para ele, habitaríamos um futuro em que a verdade
desapareceria por força de nossa própria dúvida e razão, e que, talvez, apenas
a beleza poderia recuperar a forma do mundo. Mundo este feito para acolher a
misericórdia, já que habitado por solitários como nós. A esperança, para o
nosso russo, é flor que brota dos escombros. Visões de um romântico, claro.
Romântico como a jovem Julieta.
Mesmo que presos ao tempo — que nos assola a cada
dia com o desespero que parece brotar do vazio das horas e lentamente nos
revela o destino que nos espera –, é este mesmo tempo que ambos, Shakespeare e
Santo Agostinho, chamam à cena para marcar o momento da descoberta da beleza.
Sempre tarde demais ou cedo demais, ela chega. E
nós, com nossas palavras e gestos, corremos atrás pra dar-lhe nome. Romeu e
Deus. É pelo esforço de dar nome à doce fúria que ela nos incita, que
recuperamos o gosto pelas coisas.
Mesmo que seja, como diz o príncipe no final de
“Romeu e Julieta”, para nos mostrar como nosso mundo não suporta a beleza de
dois jovens que se amam, sem perceberem que o mundo não é lugar para tamanha
monstruosidade de um amor fora do lugar.
A beleza que Agostinho tarda a amar, na história de
Cristo, é esta beleza mesma, despedaçada pela incapacidade humana de sair da
cela da humilhação para a leveza da humildade — única virtude indestrutível,
como diria outro grande artista, Georges Bernanos.
Sem a humildade, nos sentimos humilhados pela
beleza de Deus. O desejo enlouquecido de Agostinho no texto é lugar comum na
literatura mística, tradição marcada pelo encontro com esta beleza.
No texto de Shakespeare, Romeu é o objeto de amor
avassalador da jovem de 13 anos conhecida como Julieta, da nobre família dos
Capuleto, representante aqui de todo homem e toda mulher que um dia enlouqueceu
de amor.
No texto de Santo Agostinho, Deus é o objeto.
Aquele que sustenta tudo que existe e que é mais íntimo de mim do que sou de
mim mesmo. Conhecer Deus exige de nós um autoconhecimento desconhecido para
quem nunca se descobriu cego.
Beleza esta que nasce das profundezas da cegueira
de quem se sabe incapaz de criá-la, mas pressente sua presença nalgum lugar que
não sou eu.
Uma ciência do mistério, que encanta todos que um
dia escreveram sobre ela. Ridícula, como diria o profeta russo Dostoiévski em
seu maravilhoso conto tardio, “O Sonho de um Homem Ridículo“, porque
inacessível para quem nunca se viu disforme.
Se lembrarmos o que dizia outro grande artista, Nelson
Rodrigues, que escrevia contos de amor e morte, assistiríamos à peça “Romeu
e Julieta” de joelhos.
Logo o amor será objeto de algum psicofármaco.
Trataremos Julieta com calmantes, como já tratamos Santo Agostinho. Eis o
inferno para um romântico: a vida “bem” resolvida.
Luiz Felipe Pondé (jornal FS
Nenhum comentário:
Postar um comentário